MARGINHALIA: a propósito de um projetode “pensar” na periferia...
Se o que Marx (1982, p. 171) anuncia em O Capital tem algum valor, ouçam:
"Já vimos como o capital produz a mais-valia e como
a mais-valia produz um novo capital. Mas cumulação
do capital pressupõe a mais-valia, como esta pressupõe
a produção capitalista, e esta, por sua vez, a concentração
nas mãos dos produtores de mercadorias de massas
consideráveis de capital ou força de trabalho. Todo
esse movimento parece, assim, mover-se num círculo
vicioso, de onde não podemos sair a não ser pressupondo,
anteriormente a produção capitalista, uma acumulação
primitiva que seria não o resultado, mas o ponto de
partida do modo de produção capitalista."
O Curso de Letras da FAJESU inicia neste primeiro semestre do ano
de 2007 uma trajetória empreendedora na tentativa de lançamento
de mais um periódico acadêmico, dentre os vários existentes neste
país: A revista MARGINAHLIA.
A revista MARGINAHLIA nasce com um intuito manifesto de estudar,
pesquisar, aprofundar e provocar os diversos dilemas e
problematizações das letras, dentro da nossa faculdade e abrindo um
espaço futuro para publicações de interessados na área.
MARGINAHLIA é a tentativa do pensamento na periferia. É o encontro
com o processo excludente secular de alijamento das massas no bojo
da formação educacional do ocidente, que desde a escolástica
medieval colocava dentro e fora dos feudos universitários os
indivíduos escolhidos e os excluídos. MARGINAHLIA é a tentativa do
urro da periferia pensante, que não mais entende a revolução do
proletariado, mas crê na revolução das idéias.
MARGINAHLIA é e não é um panfleto. É e será um panfleto, toda vez,
que a velha academia ousar dizer, mesmo que nas filigranas dos
seus textos e vertigens burocráticos, ou pela voz de um de seus filhos conservadores, que na periferia não há quem pense. E não será um panfleto, quando os interessados nas letras precisem
recorrer a mais um instrumento de pesquisa e diálogo.
MARGINAHLIA bebe nas fontes iniciais dos manifestos, mas não
tem a pretensão das praças públicas, pois nasce da compreensão
contemporânea do esvaziamento do discurso da esquerda,
derrotado pelas suas instâncias populistas e de aprazimento pelo
poder; como também entende o agigantamento irreversível do
conservadorismo e falso puritanismo das direitas, que soerguem-se, ainda, numa educação de modelo autóctone e coronelista (marca
evidente da brasilidade). MARGINAHLIA não suporta o centro, pois
pior que estar em cima do muro é não aparecer nunca na hora do
grande debate e da grande dialética, por isso MARGINAHLIA condena
e condenará todos os -ismos e-ias desavisados e sustentados numa
pedagogia caduca, falecida e apodrecida nos velhos cronicões e livros
de linhagem do mundo antigo.
Marx não era marxista, era pensador. O capital não é uma obra de economia, mas do pensamento. Quando acreditamos que não
podemos sair do modelo vicioso, o mesmo que nos marginalizou e
disse: “Ao serviço, serviçais”, Marx abre o horizonte de perspectiva na
nossa acumulação primitiva. MARGINAHLIA não será neste sentido a
voz da barbárie ensandecida, onde o primitivismo sirva de modelo
para a violentação explícita, mas não criará sua própria etiqueta,
a fim de que este refinamento torne-se mais um dos inúmeros
aburguesamentos sectários e centralizadores.
MARGINAHLIA tentará ser a revista do prazer dos estudantes de
Letras da FAJESU; tentará ser um objeto sério e sequioso de leituras
e pesquisas; tentará ser o espaço múltiplo da divulgação dos
trabalhos literários, lingüísticos e de ensino-aprendizagem daárea das letras.
Não haverá sustos, estranhamentos ou novidades em MARGINAHLIA que não estejam condicionadas as formulações de seus possíveis
artigos, ensaios, resenhas, críticas, pois a revista não precisa de
coquetel ou reunião de notáveis na sua fundação, já que pode ser
lançada na nossa cantina e no nosso auditório, nas nossas salas de
aula e nas malas diretas que divulgarão os nossos trabalhos.
Termino falando da nossa capa. A capa de MARGINAHLIA são os olhos da periferia que estuda. As tonalidades de azul, verde, amarelo e branco são os reflexões de dentro para fora da periferia intelectual, reflexos de uma alegria de pensar muito além da sisudez triste e arrogante de que muitas vezes a academia se veste. Academia esta que adora entrar com os olhos na periferia para achar seus objetos de estudo, sem perguntar a opinião de dentro.
CHEGOU MARGINAHLIA!
Tiago Nascimento de Carvalho
MARX, Karl. O capital. Rio de Janeiro: LTC, 1982, p. 171